Por que as entidades de previdência complementar precisaram de uma norma para falar com quem sempre deveriam ter falado?
Por Marcel Barros, presidente da Anapar
Há um novo filão no mercado de consultorias e treinamentos corporativos. Chama-se linguagem simples. Se você ainda não foi abordado por algum curso, certificação ou "especialista" no assunto, é apenas uma questão de tempo. A linguagem simples está na moda. Virou selo de qualidade, bandeira de comunicação, pauta de seminário e, claro, oportunidade de negócio.
O problema não é a linguagem simples em si. O problema é o que a ascensão desse "mercado" revela: durante décadas, instituições públicas e entidades de previdência complementar escolheram deliberadamente não falar de forma compreensível com as pessoas que dependem delas. E que foi preciso uma lei — a Lei 15.263/2025, que obriga os órgãos públicos a usar linguagem simples, e, no âmbito da previdência fechada, atos normativos da Previc — para que o óbvio finalmente ganhasse força de obrigação.
Pense nisso por um momento. Foi necessário editar uma norma para que entidades responsáveis pela gestão da aposentadoria de milhões de trabalhadores se comprometessem a escrever de forma que esses trabalhadores pudessem entender o que está sendo feito com o dinheiro deles.
A demanda sempre existiu, o que faltou foi vontade - Não é de hoje que os participantes de previdência complementar reclamam da linguagem hermética dos informativos, dos extratos, dos regulamentos e das comunicações em geral. Há décadas, trabalhadores recebem documentos repletos de jargões atuariais, termos financeiros e expressões jurídicas que, na prática, os excluem de qualquer possibilidade real de acompanhar a gestão do próprio fundo.
E a resposta implícita do setor, por muito tempo, foi: "Se vira". Como se ser participante de um fundo de pensão exigisse formação em ciências atuariais, economia e direito previdenciário. Como se a obrigação de compreensão fosse exclusivamente do trabalhador e nunca de quem comunica.
Nenhum participante é obrigado a ser especialista em previdência complementar, em finanças ou em atuária para ter direito de entender como estão sendo geridos os recursos que garantirão a sua aposentadoria. Esse é um princípio elementar de qualquer relação de transparência e boa-fé. Não precisava de lei. Precisava de postura.
O mercado que nasceu da omissão - Agora que a norma existe, floresceu um mercado inteiramente novo; ou, mais precisamente, um mercado que prospera exatamente porque a omissão durou tempo demais. Surgem cursos de capacitação em linguagem simples, consultorias especializadas, workshops para equipes de comunicação, manuais de boas práticas e, inevitavelmente, especialistas que ontem não existiam e hoje são referência no assunto.
Não há nada de errado com quem oferece esses serviços. O problema é a narrativa que os acompanha: a de que adotar linguagem simples é uma conquista, uma inovação, quase um ato de generosidade das entidades para com seus participantes. Algumas fundações já anunciam com orgulho que estão "aderindo à linguagem simples", como se comunicar de forma clara fosse um diferencial competitivo e não uma obrigação básica de quem gere recursos de terceiros.
Comunicar com clareza não é inovação. É respeito. E não deveria precisar de propaganda.
Linguagem simples não é uma camada de verniz sobre textos complexos. É uma escolha editorial que começa muito antes de se sentar para escrever. Começa em decidir o que o participante precisa saber, em que ordem, com qual nível de detalhe, e em que momento da sua vida aquela informação faz diferença. É um compromisso com o interlocutor, não com o cumprimento de checklist.
Se a norma servir apenas para justificar um treinamento e emitir um certificado, teremos mudado a forma sem mudar a essência. E os participantes, que já esperaram décadas por essa mudança, continuarão, na prática, excluídos da compreensão sobre o próprio futuro.
O que se espera das entidades fechadas de previdência complementar não é que comemorem a adoção da linguagem simples como se fosse uma conquista própria. É que internalizem, de uma vez, que falar com clareza é condição mínima para a relação de confiança que a gestão de um fundo de pensão exige. É que entendam que o participante não é um destinatário passivo de comunicados; é o dono do patrimônio que a entidade administra.
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